Fatores da realidade em Portugal nas comparações internacionais - Análise ao estudo da OCDE
A transposição direta de rankings internacionais de literacia financeira para a realidade portuguesa não pode ser feita através de uma leitura superficial de quem acerta ou erra perguntas sobre taxas de juro. O estudo da OCDE (Atkinson & Messy, 2012) alerta-nos para a necessidade de observar dimensões comportamentais e sociodemográficas. Para que a comparação de Portugal com outros países seja justa e útil, é essencial ter em conta os seguintes ângulos críticos:
O efeito de Coorte e a rápida evolução do mercado. O documento da OCDE destaca que a idade não afeta a literacia financeira apenas devido ao declínio cognitivo dos mais idosos, mas devido a um efeito de coorte (Atkinson & Messy, 2012). Isto significa que as gerações mais velhas cresceram num mundo financeiro muito diferente, com produtos simples e sem tecnologias digitais.
Portugal tem uma população muito envelhecida e que transitou rapidamente de uma economia fechada (pré-década de 1980) para um mercado financeiro complexo e digitalizado. Comparar Portugal com países que tiveram uma evolução financeira e tecnológica mais gradual e com maior escolarização de base penaliza injustamente o nosso país. O baixo desempenho nacional reflete o choque de uma geração mais velha a tentar lidar com um sistema bancário moderno para o qual nunca foi preparada (Atkinson & Messy, 2012).
O estudo prova que os níveis de rendimento estão intimamente ligados aos resultados da literacia, mas traz um ângulo fascinante: - os consumidores mais pobres não têm margem financeira para aprender fazendo, pois não podem arcar com os custos de cometer erros financeiros (Atkinson & Messy, 2012). A realidade do portuguesa aponta Portugal como um país onde uma vasta fatia da população e de microempresários vive com rendimentos baixos ou muito próximos da sobrevivência, a iliteracia financeira tem um peso dramático. Enquanto num país nórdico um erro num investimento pode significar apenas a perda de uma poupança extra, em Portugal a falta de conhecimentos empurra as famílias diretamente para a necessidade de "pedir crédito para conseguir pagar as despesas básicas do dia a dia", um comportamento de alto risco sinalizado no estudo (Atkinson & Messy, 2012). No entanto, a OCDE revela que, a nível global, há uma grave falta de participação ativa e informada no mercado. Muito poucas pessoas procuram comparar produtos (fazer shopping around) ou pedir aconselhamento independente antes de tomarem uma decisão financeira (Atkinson & Messy, 2012).
Nos temos níveis altíssimos de contas bancárias ativas e uso de cartões de crédito. Por conseguinte, aplicando este ângulo crítico, percebemos que o consumidor português é altamente passivo. A maioria aceita o primeiro crédito ou seguro que o balcão do seu banco habitual lhe oferece, sem comparar custos no mercado. Qualquer comparação internacional deve evidenciar que, em Portugal, a facilidade de acesso ao crédito mascarou a ausência de um comportamento de pesquisa e comparação crítica. O relatório traz uma nuance fundamental sobre a clivagem de género; - em quase todos os países, as mulheres obtêm piores resultados nos testes de conhecimentos matemáticos do que os homens; contudo, as mulheres são frequentemente mais propensas a ter uma atitude mais positiva e cautelosa em relação ao planeamento a longo prazo (Atkinson & Messy, 2012). Ao olhar para a sociedade, muitas vezes a mulher é a gestora do orçamento diário familiar. Se um estudo internacional classificar as mulheres portuguesas apenas pelo seu conhecimento sobre inflação ou bolsa de valores, dirá que são "iliteratas". Mas, sob um ângulo crítico, as suas atitudes de conservação e sobrevivência (poupar o pouco que há para o longo prazo) são um pilar da resiliência das famílias em tempos de crise. As políticas devem focar-se em dar-lhes conhecimentos práticos que reforcem a atitude positiva que já possuem, e não apenas ensinar-lhes matemática abstrata.
Por fim, o estudo aponta que a atitude face ao risco - a disposição para arriscar dinheiro num investimento, varia imenso, mas que em muitos locais uma extrema aversão ao risco está ligada a menores níveis de literacia (Atkinson & Messy, 2012).
O tecido empresarial português e os aforradores comuns são historicamente avessos ao risco, preferindo depósitos a prazo (mesmo quando a inflação "come" o valor do dinheiro) a investimentos no mercado de capitais. Numa comparação internacional, esta extrema cautela explica por que razão o dinheiro das famílias portuguesas gera tão poucos retornos em comparação com os cidadãos dos EUA ou do Reino Unido, bloqueando a capacidade de gerar riqueza passiva a longo prazo.
Em conclusão, usar o estudo da OCDE de forma crítica exige compreender que a posição de Portugal nos rankings não é apenas um problema de falta de estudo na escola. É o resultado cruzado de uma população que envelheceu num ambiente financeiro que mudou rápido demais, de uma incapacidade de aprender errando devido aos baixos salários, e de um comodismo comportamental perante a oferta dos bancos. Avaliar Portugal internacionalmente requer compaixão sociológica e políticas ajustadas a estas realidades, e não apenas punição estatística.
Por Albertina Domingues
Bibliografia
Atkinson, A., & Messy, F.-A. (2012). Measuring Financial Literacy: Results of the OECD / International Network on Financial Education (INFE) Pilot Study. (OECD Working Papers on Finance, Insurance and Private Pensions, No. 15). OECD Publishing.
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