A Literacia Financeira e a Intenção de Criar o Próprio Negócio - Um estudo de Ana Bertachini.


Imagina o seguinte cenário: tens um colega de turma que é um génio a Matemática, lê os jornais de economia e percebe tudo sobre taxas de juro. Por outro lado, tens uma colega que até tem algumas dificuldades com os números, mas tem uma atitude destemida e uma vontade enorme de abrir a sua própria escola de surf no futuro para ser a sua própria patroa. Será que o génio da matemática tem mais probabilidades de criar uma empresa só porque percebe de finanças? 

Foi exatamente esta relação que a investigadora Ana Bertachini procurou compreender na sua dissertação de mestrado, intitulada A Literacia Financeira e a intenção empreendedora de estudantes de Engenharia", apresentada à Universidade do Minho em 2022.

O grande objetivo deste estudo académico foi perceber se existe uma ligação de dependência entre o nível de literacia financeira, os conhecimentos reais sobre a gestão do dinheiro e a intenção empreendedora, aquela enorme vontade de criar um negócio. Para testar esta ideia, a investigadora aplicou um questionário a uma amostra de 71 estudantes universitários de Engenharia, com uma média de idades a rondar os 20 anos.

Os resultados da pesquisa revelaram conclusões muito interessantes e, em parte, contrárias ao senso comum:

O conhecimento técnico não garante a vontade de empreender

Contrariamente ao que se poderia prever, o estudo provou que não existe uma relação de dependência direta entre ter um elevado nível de literacia financeira e a intenção de ser empreendedor. Ou seja, saber calcular a inflação ou fazer orçamentos rigorosos não faz com que o estudante sinta, obrigatoriamente, vontade de assumir os riscos de abrir uma empresa.

A investigação concluiu que o que realmente dita a intenção de criar um negócio é a predisposição natural e a atitude empreendedora do indivíduo. Voltando ao nosso exemplo: é o otimismo e a coragem da tua colega para enfrentar os desafios de abrir uma escola de surf que impulsionam a ação, e não a capacidade do teu colega de fazer os cálculos matemáticos do lucro.

Pese embora muitos jovens demonstrem vontade de ter o próprio negócio, o estudo revelou que a esmagadora maioria (cerca de 85,9%) assume que, de forma realista, é muito provável que acabe a trabalhar por conta de outrem, como empregado numa organização já existente. Isto acontece porque os estudantes têm noção das barreiras pesadas do mundo real. Por exemplo, eles compreendem que as leis burocráticas portuguesas são adversas aos negócios e têm a perceção clara de que é extremamente difícil conseguir que um banco lhes empreste dinheiro para abrirem, por exemplo, uma startup tecnológica ou um simples café.

Diferenças de género e o apoio familiar

A recolha de dados confirmou ainda duas tendências curiosas. Primeiro, tal como noutros estudos mundiais, os rapazes da amostra apresentaram níveis de conhecimentos financeiros estatisticamente superiores aos das raparigas. Segundo, verificou-se que os estudantes que obtêm notas mais baixas nos testes de finanças são, precisamente, aqueles que afirmam receber mais ajuda e envolvimento direto dos pais na hora de gerir a sua própria mesada ou o seu dinheiro.

O trabalho de Bertachini (2022) nos mostra claramente que, embora seja importante saber gerir o dinheiro para evitar que uma futura empresa vá à falência, o impulso inicial para dar o "salto" e ser empresário nasce da atitude, da resiliência e do perfil psicológico do jovem, e não apenas do sua pauta de notas a economia.

Por Albertina Domingues 



Bertachini, A. F. (2022). A Literacia Financeira e a intenção empreendedora de estudantes de Engenharia [Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho]. RepositóriUM.

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