Análise ao estudo da OCDE - Avaliação crítica sobre a fiabilidade de estudos internacionais de literacia financeira
A avaliação da literacia financeira à escala global, tal como a desenvolvida no estudo piloto da OCDE/INFE por Adele Atkinson e Flore-Anne Messy, constitui um avanço importante para diagnosticar lacunas e delinear estratégias nacionais e internacionais de educação financeira. No entanto, a fiabilidade das comparações diretas entre países e regiões deve ser analisada com cautela e sentido crítico, dadas as profundas discrepâncias culturais, sociais e demográficas existentes.
Em primeiro lugar, os próprios autores do estudo da OCDE alertam para os limites destas comparações devido à natureza piloto do processo e a variações metodológicas na aplicação dos questionários. Medir a literacia não se resume a um mero teste padronizado de matemática; a literacia financeira é um conceito multidimensional que engloba o conhecimento, o comportamento e a atitude.
Todavia, as diferenças demográficas assumem um papel enviesado nestas comparações. O estudo piloto provou que o nível de escolaridade e o rendimento estão fortemente correlacionados com o desempenho financeiro. Comparar diretamente um país com uma taxa historicamente alta de formação superior com uma nação em vias de desenvolvimento, sem isolar e ponderar variáveis como o acesso à educação básica, pode refletir apenas as assimetrias no desenvolvimento humano geral e não, estritamente, a eficácia da literacia financeira. Por outra, o fator género mostrou-se um elemento de forte disparidade global em quase todos os países (sendo a Hungria a exceção no estudo), as mulheres apresentam níveis de conhecimento financeiro estatisticamente inferiores aos dos homens.
Do ponto de vista das diferenças culturais e sociais, a dimensão da "Atitude Financeira" é a mais variável. O estudo demonstrou que a preferência pela poupança a longo prazo ou pelo consumo a curto prazo varia imenso de nação para nação. Por exemplo, no Peru e na Albânia, há uma atitude culturalmente enraizada de planeamento a longo prazo, enquanto na Arménia e na Polónia se verifica uma fraca satisfação no ato de poupar, denotando uma preferência pela gratificação a curto prazo. Estas atitudes são frequentemente moldadas pelo contexto histórico-económico do país como a experiência passada com hiperinflação, instabilidade política ou ausência de sistemas de segurança social fiáveis.
Conclui-se, assim, que a fiabilidade destes estudos é alta no que toca à criação de referenciais internos e à identificação de grupos de risco contudo, a elaboração de rankings diretos entre países carece de uma ponderação cuidadosa sobre o ponto de partida sociodemográfico e os fatores ambientais e macroeconómicos de cada região.
Por : Albertina Domingues
Atkinson, A., & Messy, F.-A. (2012). Measuring Financial Literacy: Results of the OECD / International Network on Financial Education (INFE) Pilot Study. (OECD Working Papers on Finance, Insurance and Private Pensions, No. 15). OECD Publishing.
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